Madri parou por causa do aluguel. O Brasil vai parar também?
Keyla Kin • Colunista Elas Constroem
Os números dão motivo para a dúvida. Em julho de 2026, o aluguel residencial acumulava alta de 9,28% em 12 meses no Índice FipeZap, contra inflação oficial de 4,44%. Ou seja, o aluguel sobe mais que o dobro da inflação. Nos cinco primeiros meses do ano, a alta atingiu 21 das 22 capitais pesquisadas.
Uma senhora de 87 anos sai de maca do apartamento onde morou por sete décadas. O motivo: o fundo de investimento que comprou o imóvel subiu o aluguel dela de 500 para 2.650 euros por mês e depois baixou para 1.650 euros, valor que a aposentadoria ainda não cobria. O nome dela é Maricarmen Abascal, e a imagem dela virou o estopim do maior movimento por moradia da Europa em anos.
O que veio depois foi rápido. Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas em mais de 50 cidades espanholas no dia 3 de outubro, um dia depois de o Congresso derrubar por margem estreita dois decretos do governo para proteger inquilinos. A praça mais famosa de Madri virou acampamento.
Aqui, a pergunta veio logo: isso pode acontecer no Brasil?
Os números dão motivo para a dúvida. Em julho de 2026, o aluguel residencial acumulava alta de 9,28% em 12 meses no Índice FipeZap, contra inflação oficial de 4,44%. Ou seja, o aluguel sobe mais que o dobro da inflação. Nos cinco primeiros meses do ano, a alta atingiu 21 das 22 capitais pesquisadas.
Pressão existe. Mas pressão de preço sozinha não coloca ninguém na rua. Olhando para a estrutura do nosso mercado, a resposta é: não vai acontecer aqui do jeito que aconteceu lá. São três motivos.
1. Nossa lei amortece o choque
O caso Maricarmen só foi possível porque o reajuste veio de uma vez, num salto de centenas por cento. No Brasil, a Lei do Inquilinato (Lei 8.245/91) amarra o contrato vigente ao índice pactuado entre as partes. Durante o prazo, o proprietário não pode simplesmente multiplicar o valor. A revisão ao preço de mercado só vem por acordo ou por ação revisional depois de três anos de contrato.
Resultado: o choque brasileiro acontece na renovação, de forma diluída, contrato a contrato, sem a cena de despejo que gera comoção nacional.
2. Não temos um sindicato de inquilinos
Na Espanha, o Sindicato de Inquilinos coordenou os protestos e convocou atos em mais de 50 cidades. É uma estrutura que organiza a classe média que aluga.
No Brasil, a mobilização por moradia tem outra base e outra pauta. Ela vem historicamente dos movimentos sem-teto, que ocupam prédios vazios para denunciar o déficit habitacional, como fazem a Frente de Luta por Moradia e o Movimento Sem-Teto do Centro em São Paulo. É uma luta legítima e antiga, mas não é a mesma do inquilino de dois dormitórios que recebeu proposta de renovação 15% mais cara.
3. Falta o vilão
Todo movimento de massa precisa de um adversário claro. Lá, são os fundos que compram prédios inteiros e expulsam moradores antigos. Aqui, o locador típico ainda é pessoa física, dono de um ou dois imóveis.
E há uma razão econômica para isso. A rentabilidade média do aluguel ficou em 6,05% ao ano em março, abaixo do retorno das aplicações financeiras com juros elevados. Com a renda fixa pagando mais, o grande investidor não tem tanto apetite por comprar aluguel residencial pulverizado. Sem fundo dono de quarteirão, não há "Maricarmen brasileira" para virar símbolo.
Então o gestor pode dormir tranquilo?
Não. O risco aqui não é protesto na rua. É conflito dentro da carteira.
O contrato antigo foi reajustado por um índice. O mercado andou em outro ritmo. Quando esse contrato vence, o proprietário quer o preço de mercado, o inquilino acha um absurdo, e a imobiliária fica no meio. E a régua mudou: o IGP-M vinha de três quedas seguidas e acelerou com força em setembro, com impacto relevante nos reajustes de locações com vencimento em outubro.
A imobiliária que espera o vencimento para conversar perde o contrato, perde o inquilino bom e às vezes perde o proprietário junto. A que antecipa faz três coisas: mapeia quais contratos vencem nos próximos 12 meses, calcula a defasagem de cada um em relação ao mercado e abre a negociação com antecedência, com dado na mão.
A Espanha está discutindo moradia na praça. Aqui, a discussão acontece na mesa de renegociação. E quem chega preparado a essa mesa é o gestor, não o que torce para o inquilino aceitar.
Keyla Kin é CEO da Kin Imóveis, advogada, corretora e mentora do Método KIN. Saiba mais em keylakin.com.br.
Fontes
Índice FipeZap (julho/2026), via Sienge
Portas: IGP-M e reajustes de outubro
InfoMoney: rentabilidade do aluguel
Political.org: protestos de 3 de outubro
Outras Palavras: movimentos de moradia em SP
DataZAP: informes do Índice FipeZap
Lei 8.245/1991 (Lei do Inquilinato)
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