O que está acontecendo na Patagônia e por que vale a pena prestar atenção agora
Juliana Vanderlinde • Colunista Elas Constroem
Energia, investimentos e novos projetos estão mudando a dimensão econômica de uma região que ainda é vista por muitos apenas como destino turístico.
O que está acontecendo na Patagônia e por que vale a pena prestar atenção agora
Energia, investimentos e novos projetos estão mudando a dimensão econômica de uma região que ainda é vista por muitos apenas como destino turístico.
Por Juliana Vanderlinde
Nas duas primeiras colunas, falei sobre uma mudança de perspectiva: sair da Patagônia que conhecemos durante uma viagem e começar a perceber o que existe quando passamos a olhar para esse lugar como possibilidade de vida, patrimônio e negócios.
Agora quero dar um passo adiante.
O que está acontecendo por aqui?
Tenho acompanhado diariamente as notícias, os novos projetos e os movimentos econômicos que estão acontecendo na região. E existe uma coisa que me chama cada vez mais atenção: algumas mudanças já estão acontecendo em uma velocidade que merece ser observada.
Não é apenas uma questão de petróleo, gás ou grandes obras.
Quando uma atividade econômica ganha escala, ela movimenta muito mais do que o setor que está na manchete. Ela traz empresas, pessoas, serviços, infraestrutura e novas necessidades.
E é justamente aí que essa história começa a ficar interessante.
Uma região, diferentes economias
Quando falamos em Patagônia, é fácil imaginar um único cenário.
Na prática, estamos falando de uma área enorme, formada por cidades e províncias com economias bastante diferentes.
Há lugares fortemente ligados ao turismo. Outros têm sua atividade concentrada em energia, produção, indústria ou agricultura. E há cidades que reúnem várias dessas características ao mesmo tempo.
Neuquén está no centro de uma das mudanças mais importantes desse momento, impulsionada por uma formação geológica que provavelmente muitos brasileiros ainda não conhecem: Vaca Muerta.*
Mas o que é Vaca Muerta?
Se você nunca ouviu falar nesse nome, vale uma explicação rápida.
Vaca Muerta não é uma cidade. É uma formação de rochas localizada principalmente na província de Neuquén, na Bacia Neuquina, onde estão grandes reservas de petróleo e gás não convencionais.
Com o avanço das tecnologias de exploração, esses recursos passaram a ser produzidos em escala comercial e transformaram a região em um dos principais polos energéticos da Argentina.*
E o que me interessa nessa história não é apenas o tamanho dessas reservas.
É tudo o que acontece quando uma atividade dessa dimensão começa a ganhar força.
Quando a energia movimenta muito mais do que energia
Uma indústria desse porte precisa de muito mais do que poços de petróleo e gás.
Precisa de estradas, transporte, equipamentos, empresas, trabalhadores, hotéis, moradias, serviços e infraestrutura.
A produção de petróleo de Vaca Muerta chegou, em julho deste ano, a 643 mil barris por dia, mais de 26% acima do registrado no mesmo mês de 2025. A produção de gás também avançou no período.*
Para quem acompanha apenas o número, pode parecer uma informação restrita ao setor energético.
Mas, vivendo aqui, é impossível olhar para esse movimento de forma tão isolada.
Quando uma atividade cresce, toda uma cadeia precisa acompanhá-la.
Novas empresas aparecem. Projetos saem do papel. Pessoas chegam. Cidades precisam se adaptar. A demanda por serviços muda.
E, aos poucos, a economia ao redor começa a ganhar outra dimensão.
O capital também está chegando
Esse movimento não está restrito às empresas de energia.
A Argentina vem criando mecanismos para atrair grandes investimentos e, segundo o Fundo Monetário Internacional, mais de US$ 45 bilhões em projetos já haviam sido aprovados dentro do principal programa argentino de incentivo a grandes investimentos até julho deste ano.*
O número, sozinho, já chama atenção.
Mas o mais interessante é observar para onde esse capital está sendo direcionado.
Energia, mineração, infraestrutura e turismo estão entre os setores contemplados, e uma parcela importante desses projetos está diretamente relacionada ao sul do país.*
No início de outubro, a francesa TotalEnergies anunciou planos de investir aproximadamente US$ 10 bilhões na Argentina, com parte relevante dos recursos destinada à expansão da produção de gás em Neuquén.*
Não se trata de uma mudança que acontece de um dia para o outro.
São projetos de longo prazo, que exigem anos de implantação e podem seguir ritmos diferentes.
Mas a direção é clara: grandes grupos internacionais estão destinando capital para atividades que têm a Patagônia como parte importante de sua operação.
E Bariloche?
Bariloche vive uma dinâmica diferente.
Sua economia não está diretamente ligada ao movimento energético de Neuquén. Sua força está no turismo, na hospitalidade, nos serviços e na posição que conquistou como um dos principais destinos internacionais da Argentina.
Mas a cidade também vem atraindo investimentos.
Em 2025, o governo argentino informou aproximadamente US$ 150 milhões em investimentos privados em hotelaria e desenvolvimento imobiliário em Bariloche.*
É uma outra face do mesmo movimento.
De um lado, energia e infraestrutura.
De outro, turismo, hospitalidade e desenvolvimento urbano.
São economias diferentes, mas ambas mostram como o sul argentino está ganhando novas camadas de atividade e investimento.
É preciso separar crescimento de oportunidade
Essa é uma distinção que considero fundamental.
O fato de uma economia estar crescendo não transforma automaticamente qualquer investimento em uma boa decisão.
Uma cidade pode receber grandes projetos e determinados imóveis continuarem sem fazer sentido.
Uma região pode atrair capital e, ainda assim, existirem oportunidades muito diferentes entre si.
Por isso, acompanhar os números é importante, mas entender onde, como e por que esse crescimento está acontecendo é ainda mais.
Uma decisão patrimonial não deveria nascer de uma manchete.
Ela começa muito antes disso: conhecendo o lugar, entendendo sua dinâmica e percebendo quais mudanças realmente podem ter impacto no futuro.
E existe outro indicador importante: a inflação
Existe ainda outro aspecto da economia argentina que ajuda a entender o momento atual.
Quem acompanha o país há alguns anos sabe que a inflação sempre fez parte da conversa. Por isso, quando os números começam a mudar, isso também merece atenção.
Em agosto de 2026, o índice oficial de preços ao consumidor registrou uma alta de 1,7% no mês. É um número que ainda representa aumento de preços, naturalmente, mas está muito distante do ritmo de inflação que marcou os períodos mais difíceis da economia argentina.*
O próprio Fundo Monetário Internacional projeta que a inflação termine 2026 em torno de 25% ao ano, abaixo dos 31,5% registrados no final de 2025. A expectativa é de continuidade gradual do processo de desaceleração nos próximos anos.*
Isso não significa que a inflação deixou de ser uma questão para quem vive aqui. Os preços continuam subindo e o custo de vida ainda exige atenção.
Mas existe uma diferença importante entre viver em uma economia em que os preços mudam em um ritmo acelerado e viver um período em que esse movimento começa a perder intensidade.
E essa mudança aparece também na forma como empresas, famílias e investidores passam a fazer planos.
Quando existe um pouco mais de previsibilidade, fica mais fácil pensar além do próximo mês.
Projetar uma obra.
Abrir um negócio.
Planejar uma mudança.
Avaliar uma propriedade.
Pensar em alguns anos, e não apenas nas próximas semanas.
É claro que a inflação é apenas uma parte da história econômica argentina. Ainda existem desafios importantes, e nem todos os setores da economia estão crescendo da mesma maneira. Mas a combinação entre uma inflação em desaceleração, novos investimentos e grandes projetos de infraestrutura ajuda a explicar por que este momento merece ser acompanhado com atenção.*
E, quando olho para tudo isso a partir daqui, é justamente essa combinação que considero mais interessante.
Não estamos falando de uma única mudança.
Estamos falando de várias peças se movimentando ao mesmo tempo.
É hora de prestar atenção
Não existe um momento universalmente certo para investir em qualquer lugar.
Mas existem momentos em que determinados territórios passam a merecer uma atenção diferente.
É o que está acontecendo agora.
Capital, infraestrutura, energia, turismo e novos projetos estão redesenhando partes importantes da economia patagônica.
Ainda existe um longo caminho pela frente. Alguns projetos levarão anos para amadurecer, outros seguirão ritmos diferentes e novas oportunidades ainda vão surgir ao longo desse processo.
Mas uma coisa já mudou: a região deixou de ser interessante apenas por aquilo que oferece a quem chega para passar alguns dias.
Existe uma economia sendo construída por trás da paisagem.
E é justamente essa parte que eu quero continuar mostrando.
Porque conhecer um lugar é também entender o que está acontecendo enquanto ele muda.
E, quando conseguimos enxergar o movimento antes de ele se tornar evidente para todos, passamos a compreender um território de uma maneira completamente diferente.
Sobre a colunista
Juliana Vanderlinde é brasileira, assessora estratégica de patrimônio e investimentos na Patagônia, com formação em Publicidade. Vive na Patagônia Argentina, onde fundou a Cordilheira Meridiana, empresa dedicada à conexão entre território, patrimônio, vida e negócios na região.
Referências
\* Argentina.gob.ar — Secretaría de Energía. Informações institucionais sobre Vaca Muerta e sua localização na Bacia Neuquina.
\* Argentina.gob.ar — *La producción de petróleo registró otro mes de crecimiento en julio*, 24 de agosto de 2026. Dados de produção de petróleo e gás de Vaca Muerta.
\* Fundo Monetário Internacional — *Argentina Looks Forward*, 31 de julho de 2026. Dados sobre projetos aprovados pelo RIGI e perspectivas de investimento.
\* Fundo Monetário Internacional — *Argentina: 2026 Article IV Consultation / Second Review*, 2026. Informações sobre o RIGI e os setores estratégicos de investimento.
\* Reuters — *TotalEnergies to invest $10 billion in Argentina, CEO Pouyanne says*, 1º de outubro de 2026. Anúncio de investimentos e expansão da produção de gás em Neuquén.
\* Argentina.gob.ar — *Bariloche: inversiones turísticas privadas por 150 millones de dólares*, 11 de dezembro de 2025. Informações sobre investimentos privados em hotelaria e desenvolvimento imobiliário em Bariloche.
\* INDEC — Instituto Nacional de Estadística y Censos, *Índice de precios al consumidor*. Dado oficial de inflação de agosto de 2026.
\* Fundo Monetário Internacional — *Argentina: 2026 Article IV Consultation / Second Review*, 2026. Projeção de inflação para 2026 e perspectiva de desaceleração.
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