Ser mulher e gerir imobiliária em setor historicamente masculino: o que isso muda na prática de liderança, não só no discurso.
Falar sobre liderança feminina no mercado imobiliário importa, e cada vez mais espaços têm dado voz a isso. Mas no dia a dia de gerir uma imobiliária com quase 30 corretores, boa parte homens, o que realmente muda não é só o discurso, é a decisão prática: como você negocia, como você é ouvida numa reunião, como você lida com quem testa seu limite só porque você é mulher. Este artigo é sobre essa prática.
Ser mulher e gerir imobiliária em setor historicamente masculino: o que isso muda na prática de liderança, não só no discurso
Falar sobre liderança feminina no mercado imobiliário importa, e cada vez mais espaços têm dado voz a isso. Mas no dia a dia de gerir uma imobiliária com quase 30 corretores, boa parte homens, o que realmente muda não é só o discurso, é a decisão prática: como você negocia, como você é ouvida numa reunião, como você lida com quem testa seu limite só porque você é mulher. Este artigo é sobre essa prática.
Discurso e prática de gestão, lado a lado
Muitos espaços falam em protagonismo feminino no palco, e isso tem valor real. Mas menos se fala sobre o que muda na régua de decisão do dia a dia de quem gere operação, aprova contrato, negocia comissão e cobra resultado de equipe. O discurso inspira, e a prática é o que resolve a reunião concreta de segunda-feira.
Os números ajudam a entender a dimensão disso. Segundo o COFECI, mulheres já representam mais de 40% dos corretores habilitados no país, e em São Paulo o número de corretoras ativas mais que dobrou em sete anos, passando a 39,2% dos profissionais inscritos no estado. A presença cresceu de forma real. Mas presença não é a mesma coisa que comando: uma pesquisa do Instituto Mulheres do Imobiliário, com mais de 800 profissionais, mostra que 93% das mulheres reconhecem que conquistaram mais espaço no setor, e apenas 28% percebem mulheres ocupando cargos de liderança. Esse gap entre presença e liderança é o ponto real. Ter mais mulheres corretoras não significa ter mais mulheres donas ou gestoras, e é exatamente nesse espaço entre os dois números que este artigo se posiciona.
Comecei como corretora de lançamentos do programa Minha Casa Minha Vida, antes de fundar a Kin Imóveis. Nesse caminho todo, aprendi que representatividade importa, mas o que sustenta autoridade no dia a dia é outra coisa: decisão consistente, processo claro e resultado que se sustenta mês após mês.
Onde o gênero aparece na prática de gestão
Não é sobre generalizar toda situação como "problema de gênero", mas fingir que isso não aparece na prática seria desonesto. Aparece, por exemplo, em reunião predominantemente masculina, onde a mesma colocação, dita por você, precisa ser repetida ou reforçada de um jeito que colega homem não precisa repetir. Aparece em negociação com corretor mais velho ou mais experiente, que testa até onde vai sua autoridade antes de aceitar uma decisão. Aparece em cliente que pergunta "posso falar com o responsável" presumindo que o responsável é homem, mesmo com você sentada na mesa como dona.
Nenhuma dessas situações é motivo pra vitimismo. São situações reais que exigem resposta prática, não indignação. A resposta que funciona, na minha experiência, é decisão bem fundamentada e repetida com consistência até virar padrão reconhecido.
A armadilha de compensar demais
Um ponto que vale observar: em ambientes historicamente masculinos, é comum a tentação de compensar em excesso, ser mais rígida, mais fechada, mais dura do que precisaria, só para garantir que a competência seja reconhecida. Isso pode desgastar a liderança em vez de fortalecer, porque troca autoridade construída por processo e resultado por uma versão sustentada só na postura.
Com o tempo, muita leitura e cursos voltados pra gestão de pessoas, fui entendendo que autoridade que se sustenta é a que vem de decisão consistente e de resultado demonstrado, não de rigidez. Hoje tento levar a gestão, e a vida, da forma mais leve possível, sem abrir mão de processo e consistência.
Como isso molda a forma como você monta equipe
Criei minha equipe com base em processo, não em "jeitinho de dona" nem em compensação de gênero. Regra clara de aprovação, meta objetiva, critério de contratação que vale igual pra qualquer corretor, homem ou mulher. Isso não elimina as dinâmicas de gênero que aparecem no dia a dia, mas evita que a gestão da equipe dependa da minha capacidade de impor autoridade pessoal a cada situação. Processo sustenta liderança de um jeito que discurso não sustenta.
O que isso ensina além do discurso
Liderança de mulher em setor historicamente masculino não é sobre provar que você consegue mudar o ambiente sozinha. É sobre construir autoridade via processo e resultado, do mesmo jeito que qualquer gestor deveria fazer. A diferença é que essa jornada exige atenção a mais uma camada de dinâmica, e quem reconhece isso cedo perde menos tempo reagindo a ela.
Se você é dona de imobiliária e sente isso no dia a dia, o caminho não é discurso nem compensação. É processo consistente, decisão bem fundamentada e resultado que fala por si.
Fontes: COFECI/CRECI-SP; Instituto Mulheres do Imobiliário; Brain Inteligência Estratégica.
Sobre a autora: Keyla Kin é CEO e fundadora da Kin Imóveis, imobiliária com mais de 11 anos na Zona Sul de São Paulo. É advogada (OAB/SP 411.435), corretora de imóveis (CRECI/SP 131.693) e tem MBA em Direito Imobiliário pela FGV. Hoje ajuda donos de imobiliária a escalar suas operações através de gestão de dados, análise e melhoria de processo.
E-mail: keyla@kinimoveis.com.br | Telefone: (11) 98459-1195 | Instagram: @keyla_kin
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