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Você não precisa escolher entre ser respeitada e ser querida.

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Colunista Elas Constroem Natalia Heiderich Publicado em 30/09/2026
Você não precisa escolher entre ser respeitada e ser querida. Natalia Heiderich • Colunista Elas Constroem

Existe um momento em que a gente percebe que ser querida por todos pode estar custando caro demais. Não necessariamente porque deixamos de valorizar relações, escuta ou gentileza, mas porque começamos a perceber que existe uma diferença importante entre ser uma pessoa agradável e precisar da aprovação de todos para sustentar as próprias escolhas.

Você não precisa escolher entre ser respeitada e ser querida.
Por: Natalia Heiderich

 

Existe um momento em que a gente percebe que ser querida por todos pode estar custando caro demais. Não necessariamente porque deixamos de valorizar relações, escuta ou gentileza, mas porque começamos a perceber que existe uma diferença importante entre ser uma pessoa agradável e precisar da aprovação de todos para sustentar as próprias escolhas.

Existe uma expectativa, especialmente para nós, mulheres, de que competência venha acompanhada de delicadeza, disponibilidade e capacidade de não gerar desconforto. Podemos ser firmes, desde que não pareçamos duras. Podemos discordar, desde que façamos isso de maneira suficientemente suave. Podemos ocupar espaço, desde que não pareça que estamos tomando espaço demais. Podemos falar sobre dinheiro, desde que não pareça que estamos colocando o dinheiro acima de outras coisas. Podemos ser ambiciosas, desde que encontremos uma maneira de fazer nossa ambição parecer confortável para quem está olhando.

Talvez por isso tantas mulheres tenham aprendido a suavizar aquilo que pensam antes mesmo de dizer.

Explicam demais uma decisão. Pedem desculpas antes de estabelecer um limite. Aceitam uma condição que não consideram justa porque não querem parecer difíceis. Demoram para cobrar porque não querem que o relacionamento seja afetado. Evitam discordar de alguém mais experiente porque ainda não se sentem autorizadas a ocupar aquele lugar. E, muitas vezes, confundem gentileza com concessão e educação com necessidade de agradar.

O problema é que existe um custo para isso.

Quando passamos tempo demais tentando não incomodar, começamos a tomar decisões profissionais a partir da reação que imaginamos que elas provocarão, e não a partir daquilo que realmente acreditamos ser correto. A pergunta deixa de ser “isso faz sentido?” e passa a ser “como será que vão receber isso?”. E, aos poucos, sem perceber, podemos começar a construir uma carreira mais preocupada em preservar a aprovação dos outros do que em sustentar a nossa própria posição.

Ser respeitada é diferente de ser querida.

Respeito nasce, entre outras coisas, da coerência. Da capacidade de sustentar aquilo que defendemos, cumprir aquilo que prometemos, reconhecer quando estamos erradas e estabelecer limites quando eles são necessários. Ser querida depende muito mais da percepção que o outro tem de nós, e essa percepção nem sempre está sob nosso controle.

Haverá pessoas que não gostarão de uma decisão nossa. Haverá clientes que não concordarão com uma orientação. Haverá colegas que interpretarão nossa firmeza como arrogância, nossa ambição como excesso ou nossa segurança como falta de humildade. Nem sempre porque estamos fazendo algo errado, mas porque pessoas diferentes enxergam o mesmo comportamento a partir de referências diferentes.

E uma parte importante do amadurecimento profissional é aceitar que não podemos construir uma carreira inteira tentando controlar a interpretação que os outros fazem de nós.

Isso não significa deixar de ouvir. Pelo contrário. Uma profissional madura precisa ser capaz de receber críticas, rever posições, reconhecer erros e compreender quando uma percepção externa revela algo que ela própria não havia percebido. O problema está em transformar toda discordância em sinal de que precisamos mudar.

Nem toda crítica exige uma mudança. Nem todo desconforto significa que ultrapassamos um limite. Às vezes, significa apenas que estabelecemos um.

Existe uma diferença enorme entre ser uma pessoa difícil e ser uma profissional que sabe dizer não. Entre ser arrogante e não precisar diminuir a própria competência para que os outros se sintam confortáveis. Entre ser inflexível e saber quais princípios não estão disponíveis para negociação.

E é aqui que muitas mulheres precisem fazer uma revisão silenciosa da própria carreira: quais concessões são realmente parte da construção de relações saudáveis e quais são apenas uma tentativa de evitar o desconforto de desagradar?

Porque agradar pode ser uma estratégia eficiente no curto prazo. Evita conflitos, preserva conversas, mantém portas abertas. Mas, quando se transforma em padrão, pode produzir um efeito perverso: as pessoas passam a conhecer uma versão nossa que está sempre disponível, sempre compreensiva, sempre flexível e quase nunca estabelece limites. E, quando finalmente precisamos dizer não, o limite parece uma mudança de comportamento, quando, na verdade, talvez seja apenas a primeira vez que estamos deixando claro onde ele sempre deveria ter estado.

Isso acontece também com dinheiro.

Quantas mulheres excelentes ainda sentem desconforto ao falar sobre quanto cobram pelo próprio trabalho? Quantas diminuem o preço antes mesmo de o cliente questionar? Quantas entregam mais do que foi contratado porque têm dificuldade de estabelecer o que está ou não incluído? Quantas associam valor profissional à quantidade de coisas que conseguem fazer, quando poderiam estar olhando para a qualidade, a responsabilidade e o conhecimento que colocam à disposição?

Falar sobre dinheiro não diminui a relevância do trabalho. Saber cobrar não torna ninguém menos generosa. E estabelecer o valor daquilo que fazemos não deveria exigir uma justificativa moral.

Ter consciência do próprio valor não significa acreditar que somos melhores do que os outros.

A primeira é necessária para uma carreira sustentável. A segunda não.

Talvez seja por isso que eu acredite que uma das maiores formas de liberdade profissional seja deixar de precisar provar o tempo inteiro que merecemos estar onde estamos. Não significa acomodação. Significa substituir a necessidade constante de aprovação pela responsabilidade de continuar evoluindo.

Porque, quando sabemos que ainda temos muito a aprender, não precisamos fingir que sabemos tudo. Quando conhecemos a qualidade do nosso trabalho, não precisamos convencer todos de que somos boas. Quando temos clareza sobre nossos princípios, não precisamos transformar cada discordância em uma batalha.

E isso muda a maneira como ocupamos espaço.

Passamos a falar sem pedir desculpas por ter uma opinião. A negociar sem constrangimento. A cobrar sem transformar o próprio preço em uma defesa pessoal. A dizer não sem escrever uma página inteira de justificativas. A aceitar que algumas pessoas vão escolher outro profissional. A compreender que nem toda porta fechada representa uma oportunidade perdida.

Algumas representam apenas um caminho que não era nosso.

Construir uma carreira também é fazer escolhas sobre aquilo que não queremos mais carregar. E, para muitas mulheres, isso pode significar abandonar a necessidade de serem percebidas como agradáveis o tempo inteiro.

Porque existe uma diferença entre ser gentil e ser conveniente.

A mulher gentil pode discordar. Pode estabelecer limites. Pode cobrar. Pode negociar. Pode dizer não. Pode liderar. Pode ser ambiciosa. Pode ocupar uma sala inteira sem precisar diminuir a própria presença para que alguém ao lado se sinta maior.

Ela não precisa endurecer para ser respeitada. Precisa apenas entender que respeito não é consequência de nunca contrariar ninguém.

E existe algo ainda mais importante: não precisamos escolher entre competência e humanidade.

Podemos ser firmes sem perder a delicadeza. Podemos ser ambiciosas sem perder a generosidade. Podemos defender nossos interesses sem desrespeitar os interesses dos outros. Podemos construir relações verdadeiras sem transformar cada relação em uma obrigação de agradar.

Amadurecer profissionalmente é, em parte, aprender essa diferença.

Nem todo mundo precisa gostar da maneira como você trabalha para reconhecer a qualidade do seu trabalho. Nem todo cliente precisa permanecer para que você tenha certeza de que fez a coisa certa. Nem toda pessoa precisa concordar com sua decisão para que ela seja legítima.

E, principalmente, você não precisa ser querida para ser respeitada.

Mas precisa aprender a se respeitar o suficiente para sustentar o lugar que conquistou.

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